quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A doida do "eu te amo''



A discrição era tamanha que até a professora de inglês sabia da minha paixão por ele. Aliás, a escola inteira, inclusive ele : "Spider-Man".  Era assim que secretamente o chamávamos - eu e minha melhor amiga- . Não lembro a utilidade do apelido ( era tipo um código), se todo mundo dava um sorrisinho sacana pra mim quando ele estava por perto.Ou seja, até quem não me conhecia poderia prever que a pauta das minhas conversas adolescentes era o menino da bicicletinha.  Totalmente ingênua  nossa tentativa de manter em secreto o que era do conhecimento de todos.

Novato no colégio e com estilo que incluía um pouco de radicalismo e um cavalheirismo incomum, não demorou muito para me conquistar, mesmo sem querer. Lembro bem das correntes penduradas no bolso da calça, do tênis rainha preto desgastado, dos súbitos movimentos em cima dos banquinhos com a bike. Não sei se as meninas piravam, mas eu ficava encantada.  Sonhadora, com um único beijo na bagagem e um coração ingênuo nem sabia ao certo se queria namorar ele. Na verdade, acho que nem sabia o que era namorar. Ter 15 anos,  ser certinha e nerd tem dessas coisas.  Bom , eu acho que era nerd, já que sentava na frente , só tirava 9 e 10, adorava matemática e outras coisas que ninguém mais gostava. Aliás, na década de 90 pessoas  que se encaixavam nessa discrição eram chaamdas de CDF.

Um dia fomos apresentados por um amigo em comum.  E o que foi aquele beijinho carinhoso em minha mão?  Não bastava ser o  spider man, tinha que ser adorável também ?  Surpreendeu-me porque não imaginava que meninos que curtiam acrobacias  tivessem um lado gentleman. Ele era perfeito. Se sua essência artística era despercebida por alguns, era muito evidente para mim.  Sempre envolvido nos eventos culturais da escola, dava pra sacar que era diferente.  Ele só tinha um pequeno defeito: não ser interessado por mim.

Eis que certa tarde, sabe-se lá porque, decidi radicalizar. Logo eu que me trancava no banheiro cada vez que os colegas ameaçavam chamar spiderman na sala. Nem sei porque a gente ainda considera esses sacaninhas juvenis como amigos. Sério, eles te fazem passar vexame, principalmente se souber que você está perdidamente apaixonada pelo o cara mais estiloso da escola. Mas aquele dia não. Eu estava cansada de correr, de me esconder, de tentar negar, de ser uma conhecida apenas. Comprei passagem direta para Micolândia, mas não me arrependi. Gostei tanto que até hoje não achei a saída desse lugar.

De repente estava apenas eu, ele e uma sala vazia. Sentei na mesinha, respirei fundo, olhei em seus olhos e  só voltei a respirar uns 5 minutos depois.Porque a essa altura já estava provavelmente trancada no banheiro. Um lugar nada agradável para quem necessita de ar  puro. Nem preciso dizer que não deixei ele falar, que o metralhei com palavras cuidadosamente ensaiadas na noite anterior. Não preciso dizer  que antes da “corrida de São Silvestre” tudo o que eu estava sentindo e que ele e a escola inteira já sabia foi escancarado. Não era uma novidade, mas foi dito dessa vez por mim, a única  pessoa com propriedade e direito para falar aquilo para ele.

Não me recordo bem tudo que disse, mas jamais esqueci a parte que realmente importava e que não precisou ser decorada. Não sei o que spider man sentiu naquele instante e  se pensou nisso depois. Não sei se ele gostaria de ter dito algo, ou se acabei fazendo um favor a ele por fugir. Mas eu daria tudo pra saber o que ele, o menino das manobras radicais, sentiu no exato momento que finalizei o discurso com  “eu amo você”. Tudo bem, não era a Beyonce que estava ali na frente dele, mas a garota que sentava na primeira carteira, que não matava aula, que fazia poemas e que se trancava no banheiro para fugir das próprias emoções.

Eu poderia não ter a cara da Megan Fox e  habilidade nenhuma pra flertar, o que não mudou com o tempo, mas eu amava genuinamente o carinha da sala ao lado. Rompi as barreiras da covardia, conquistei um mico, mas entrei para a história do colégio e da vida dele. Porque querendo ele ou não, ao traçar a sua linha do tempo, lá no ano de 1999, vai ter registrado o episódio da doida do “eu te amo.” Hoje essa história me rende boas risadas e lembranças de como o colégio é um lugar especial, onde vamos viver grandes emoções.

 Agora eu entendo, professora Cleomare o chamava de Spider Man, porque além dele ser o homem aranha  da escola, ela queria que eu fosse mais discreta ao falar da minha paixão. Afinal, todo mundo sabia quem era o Rafael da oitava série. Sabe os sacaninhas dos meus amigos? Eles não queriam apenas me fazer passar vexame na frente do garoto que gostava, mas queriam me dar a chance de arriscar, de me declarar e não ficar somente imaginando o que poderia acontecer. É por isso que  a época do colégio faz tanta falta.


Quatorze  anos depois eu encontro Spider Man advinha fazendo o que ? Ahan, com sua bick, subindo nos banquinhos da orla da cidade  numa noite de sábado. Agora um doce para o palpite certo sobre minha reação. Se você pensou “ aposto que ela foi lá e falou com ele” , posso até te dar o doce, mas lamento você errou.  Agora,  se você imaginou que eu quis sair correndo naquele momento , parabéns você sacou que a gente vai para a faculdade, mas o colégio permanece em nós. Não sei se o verei novamente porque ele mora em outro lugar onde  tem crescido muito com esse lance de bicicletinha (bmx). Além de ser homem aranha é também dançarino e tem unido bem o útil com o agradável. Que maravilha né.

Sabe o que é mais incrível ? É que na noite anterior a que o vi , tinha achado meu diário antigo e lido o episódio da doida do eu te amo com uma amiga que dormiu na minha casa. E no dia seguinte, quando a gente já tinha desistido de fazer o vídeo arte para a faculdade por motivos de “crise criativa e de percepção poética de uma situação qualquer na rua” eis que surge spiderman  subindo nos  bancos ao nosso redor como fazia na escola. O vídeo arte não foi sobre aquele momento, mas teria sido perfeito se fosse capaz de capitar a poesia que acontecia naquele instante.


A primeira declaração de amor (única do gênero) . Cheiro de saudade. Amigos sacanas. Professora conselheira. Diário antigo. Fugas emotivas. Bilhetinhos secretos. Amor juvenil. Quanta lembrança boa cabe em uma única cena. E eu ali apenas contemplando spider man e seu talento , pedindo aos deuses que me tornasse invisível naquele momento, porque com certeza tava na cara que eu estava procurando um buraco para me esconder . Algumas coisas nunca mudam. Alguém especial será sempre especial ainda que o sentimento se transforme e quem costuma fugir das próprias emoções vai desejar ter sempre um banheiro por perto, caso precise se refugiar e recuperar o fôlego.















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